17.8.19

Insônia

 I.
Preparei café às onze da noite. Não conseguia dormir. Estava presa entre o dia anterior e a manhã seguinte. Essa prisão noturna, a angústia, que me priva do próprio sono. Escutava o barulho da rua escura. Um grilo e um rádio disputavam a cantoria. Mas o som do silêncio abafava os dois. No meu ouvido, dizia algo. Algo que só o silêncio sabe dizer. Algo que só eu sabia. Algo que eu não sabia. Algo que eu não sabia que sabia. O que era mesmo?

II.
Assisti alguns episódios de série até meus olhos cansarem. Três da madrugada. Não havia mais rádio nem grilo. Desliguei a tevê. O breu nos olhos e a quietude nos ouvidos, os sentidos suspensos. Pela janela, a lua brilhava distante no céu junto dos postes. Pensei em escrever. Palavras escapavam da mente e não chegavam à língua. Nem chegavam a ser palavras. Eu e o silêncio divagávamos longamente sem forma ou frases. Só eu e minhas grades.

III.
Seis da manhã. Não sei se adormeci sem querer, se fiquei acordada e sonolenta, ou sei lá. Meus olhos se abriram e o sol os tocou. Foi isso. Os postes estavam apagados e a lua, oculta. Ouvi a sinfonia ruidosa da rua dourada. Meu pescoço torto e dolorido. O cheiro de café matinal pela casa, muito diferente do noturno. Era dia. Já não estava presa, e nem o dia passado nem as grades existiam mais. O dia seguinte passou a se chamar hoje. Saí e fechei a porta.
- Mari, 17.08.19