14.2.19

Estase (ou conversa de uma tarde chuvosa)

 Creio que essa tarde chuvosa seja a primeira vez nesse mês (desde o quase-final de janeiro) em que houve uma intersecção entre minha vontade de escrever e meu tempo vago. Nesse meio-tempo de vinte e poucos dias, eu tive algumas experiências: comecei a buscar emprego, fiz uma viagem repentina, vi filmes e ouvi músicas que me despertaram uma vontade de analisar e escrever, minhas aulas voltaram (nessa semana), entre outros pequenos acontecimentos. 
 Essas coisas não se espaçaram entre esses dias, elas se concentraram bastante na semana retrasada e no início da semana passada. De lá para cá, não houve muita coisa além do início das aulas, que não foi nada entusiasmante para mim.
 No ócio da última semana, eu tentei escrever sobre tudo que aconteceu, mas a sobrecarga de assuntos simplesmente parecia impedir a concentração. Eu queria conseguir contar tudo, tudo mesmo; mas eu não conseguia ligar os assuntos na minha mente, e tudo soava como uma exposição superficial cronológica de acontecimentos e eu odeio escrever assim. E com a "volta a realidade", eu estava (e estou) tão entediada e desanimada que eu simplesmente não tinha a mínima energia para a escrita, por mais que eu quisesse. Mesmo frustrada, não tinha muito o que fazer nesse caso.
 Meus curtos tempos vagos foram dedicados a ouvir música, contemplar, cuidar da aparência e fazer nada. E, de verdade, não é tão chato quanto pode soar; essa semana, eu pintei as unhas de vermelho cintilante ao som de Lady Grinning Soul, do David Bowie. Foi uma coisa extremamente normal de se fazer, mas eu me senti como se eu estivesse em um filme, fora da realidade (as coisas que as músicas do Bowie podem trazer naturalmente), e eu me senti... feliz, de um jeito extraordinário e estranho. Até o momento mais comum pode se tornar um pouco irreal se você estiver disposto a sentir.
 Ah, e sobre a realidade e a vida útil:  apesar de tentar, não sei se ando me saindo tão bem nela. Não sei se tomei as melhores decisões no ano passado, mas o tempo vai começar a dizer em breve.
 Não quero soar pessimista, nem dramática, entretanto, eu me sinto como um barco em alto-mar esperando a vinda de uma tempestade, em estase, incapaz de mudar muita coisa. E, honestamente, esse sentimento é uma droga. Mais que nunca, ando descobrindo que mudar os cursos da minha própria vida pode ser muito difícil, contando com todas as circunstâncias (além da minha idade atual), com correntes a lugares e pessoas, e tudo mais. E nem digo isso apenas da minha vida (que é bem pequena) como em relação ao mundo cada vez mais difícil e incerto que se desenrola.
 Apesar de tudo, eu agradeço por ainda ter caneta e papel,  ou teclado e uma tela, porque é a minha voz, quando eu não tenho onde gritar minha insatisfação, tristeza ou qualquer sentimento que seja. Se eu não posso tomar as rédeas da minha vida, ao menos posso escolher minhas palavras,  ser sincera, traçar um rumo, e a roda do leme é minha caneta; e talvez as folhas em branco sejam meu símbolo de liberdade. 
 Enfim, eu não sei como terminar essa conversa um tanto catártica e meio preguiçosa que abri. Queria registrar que durante o tempo em que estive escrevendo esse texto, a chuva, que estava serena, parou e o sol apareceu um pouco. Estou indo tomar um café agora, aproveitar um pouco o fim do meu tempo vago de tédio. Ah, e por fim, desejo que, aonde quer que você esteja, que você aproveite sua tarde também.
- Com carinho e café, Mari.