a lua pela janela do meu quarto

Na loteria

Fundo de um prédio
     Esse mês, eu fiz vinte anos e o blog, quatro. Relendo os posts, achei engraçado que, em um texto de um ano atrás, eu disse que eu queria postar mais vezes, e o que eu fiz foi justamente o contrário. Muitas coisas inesperadas aconteceram e eu fui para lugares que eu jamais imaginaria um ano atrás. Todos esses acontecimentos podem ser enquadrados entre "bons" e "ruins", mas eu penso que esses são termos limitados, pois retratam apenas um ponto, um momento presente, sem considerar o desenrolar das coisas. Por isso, eu combino esses termos com uma condição de consequência, como, por exemplo, "para o melhor" e "para o pior". Sendo assim, um acontecimento "ruim" e "para o melhor" é uma dor momentânea que traz algo bom no futuro; e um acontecimento "bom" e "para o pior" é uma sorte que, a longo prazo, se torna azar. Mas essa definição flutua a medida que o tempo avança, podendo haver um acontecimento bom inicial que é para o melhor, depois para o pior, depois para o pior de novo, depois para o melhor; e as consequências das consequências se desdobram e se enlaçam com novos acontecimentos. Assim sucessivamente. 
    Andei pensando no quão terrível e hilário é ter que conviver com a aleatoriedade. Durante esse período da faculdade, li vários livros do Jorge Luis Borges; um conto dele que ficou na minha cabeça é A Loteria da Babilônia. Nesse conto, jogos de loteria infinitos definem o destino de todos os homens de uma cidade. Ele descreve o procedimento da loteria assim:
    Imaginemos um primeiro sorteio que decrete a morte de um homem. Para o seu cumprimento procede-se a um outro sorteio, que propõe (digamos) nove executores possíveis. Desses executores quatro podem iniciar um terceiro sorteio que dirá o nome do carrasco, dois podem substituir a ordem infeliz por uma ordem ditosa (o encontro de um tesouro, digamos), outro exacerbará (isto é, a tornará infame ou a enriquecerá de torturas), outros podem negar-se a cumpri-la... Tal é o esquema simbólico. Na realidade o número de sorteios é infinito. Nenhuma decisão é final, todas se ramificam noutras. Os ignorantes supõem que infinitos sorteios requerem um tempo infinito; em verdade, basta que o tempo seja infinitamente subdivisível... (Borges, 1941)
  Enquanto a loteria realiza seus infinitos sorteios nas infinitas frações de tempo que existem (minutos que  se dividem em segundos que se dividem em milissegundos que se...), o caos de cada decisão leva a mais e mais jogos. Como a Companhia sorteia os destinos de todos e de tudo, eu imagino que há também uma infinidade de jogos simultâneos dentro da fração mais curta de tempo; e as vidas e ocorridos se entrelaçam das formas mais inimagináveis e inesperadas, desde veias que estouram a moedas no chão da rua, misturados ainda ao caos interior (seja o nosso ou o alheio).
Portal    No fim do conto, depois de descrever o surgimento e a evolução da loteria, o narrador conta que os babilônios já não sabem mais se há mesmo a loteria: alguns teorizam que ela acabou, ou que ela é eterna, ou que ela se aplica apenas a coisas menores; mas alguns propõem que crer ou não na existência da loteria é indiferente, pois a própria Babilônia já é um "infinito jogo de acasos". E enquanto aceitar ou rejeitar o acaso seja tão indiferente quanto a existência da loteria, acredito que a consciência do desconhecido e do incontrolável é uma coisa cosmicamente boa. Até por uma questão de senso de humor.
    Enfim, uma lista (fora de ordem) com alguns acontecimentos dos últimos 365 dias:
  • Fui pra faculdade
  • Escrevi
  • Fiz um trabalho em forma de minidocumentário sobre Deus e O Diabo Na Terra do Sol
  • Passei meses do ano passado com pessoas em hospitais
  • Fiz um site
  • Entreguei mais currículos
  • Pessoas saíram da minha vida (...e foi bom)
  • Conheci e reencontrei pessoas
  • Peguei muitos livros na biblioteca da faculdade
  • Fui a lugares novos
  • Cortei o cabelo
  • Tentando não quebrar mais espelhos
  • Ainda mais neurótica que antes
Mari, 24.08.22